#ContosNãoContados: Tato

A vida é cheia de surpresas. Nem sempre agradáveis, claro. Mas para Camilla, a vida foi surpreendente quando colocou Maurício em seu caminho.

Ela, a filhinha da mamãe e a queridinha do pai sempre teve o sonho dourado de amor. Para Camilla, muito mais que se apaixonar, era preciso se manter apaixonada. A máxima da conquista dia após dia, “surpreendendo e sendo surpreendida” constantemente. Depois de algumas desilusões, a espelho de algumas amigas que inciaram relacionamentos com amigos de longa data, Camilla o encontrou. A amizade começou, mas não seguiu o script das amigas. Logo, Maurício e Camilla se afeiçoaram e começaram a flertar. O relacionamento deles iniciou de forma imprevista e não planejada. No popular, apenas rolou.

Maurício, talvez percebendo que Camilla era uma legítima moça de família, a introduziu em sua vida de forma ímpar. Aos olhos de Camilla, aquele homem era para casar. Delicado, atencioso, simpático, inteligente, bonito, com um bom humor, gostos refinados e uma disponibilidade nunca antes experimentada por ela. Não demorou para que se sentisse a princesinha daquele príncipe encantado. Conheceu a família de Maurício e foi incluída em sua roda de amigos, da qual não torceu o nariz para nenhum, se dando bem com todos.

Os meses passaram e a convivência, quase que total, deu início aos testes no relacionamento. Gostos divergentes e problemas de comunicação com um cara despojado e requisitado por muitos amigos, e amigas. Naturalmente, no que se refere a este último público, Camilla se sentiu ainda mais insegura do que sempre fora. Após várias provações e confrontamentos entre ela e Maurício, o amor persistiu e a insistência de ambos, hora maior de um, hora maior de outro, rendeu boas histórias e mudanças em ambos. Mas, nenhum ser humano é capaz de mudar por completo. Não é a interação com outra pessoa que fará que um se vire do avesso, por mais que esta idealização romântica seja bem difundida… Assim, vieram os dramas de Camilla, desejando cada vez mais atenção e dedicação de Maurício. Ele, sempre muito disponível para ela, passou a também ser disponível para amigos, cujos programas não agradavam muito a ela. O auge do conflito de interesses se deu quando Maurício quis pular Carnaval com os amigos, em oposição ao desejo de Camilla de fazer programas, digamos, menos ‘zuados’ e popularmente carnais. O fato é que o papel de santa sempre prevalecia para ela dentro de uma relação. Os conflitos subsequentes acabaram se tornando uma bola de neve. Não se sabe se por falta de vontade de ambos apararem as arestas ou definitivamente por desencontros de interesses ditos essenciais (para ele, programas sem ser de casal; para ela, programas cada vez mais inclusivos e não popularmente mal vistos), essa avalanche desceu desenfreada morro abaixo, sempre acumulando meias palavras, desejos desencontrados e mais mal estares.

Camilla, diante de tantas opiniões alheias, afinal, ela é uma pessoa aberta e compartilhadora, decidiu tentar apimentar a relação e, seguindo conselhos populares de anciãs, procurou “amarrar” Maurício pela cama, já que não sabia cozinhar tão bem. Mediante a exploração de seus desejos mais íntimos – mas nem de longe revelados em sua totalidade – descobriu um companheiro sexualmente mais quadrado, conservador. Ao escutar dele que aquela “nova” faceta dela assustava e o provocava medo, o copo transbordou e aquela neve que ela tentara derreter, se petrificou e a cegou de qualquer possível fácil solução. Uma puta rejeitada nem sempre lida da melhor forma com a recusa de seu objeto de sedução, afinal, ela se sente merecedora de ser e tem que ser o foco de desejo do outro. Para Camilla, Maurício devia perder a cabeça por ela… Assim era o amor em sua cabeça. Facetas românticas, calmas e em família intercalados com momentos quentes, apaixonados e fervorosos, de tirar o folego e, por que não, dignos de qualquer tom de cinza ou, melhor, de vermelho vivo.

Ressentida, ela se fechou em seu casulo feminino de indiferença e permaneceu na defensiva por dias. Revivendo as saídas solitárias de seu amado e mirabolando ene justificativas para elas ou os para os papos furtivos entre ele e seus amigos, que de longe são exemplos de fidelidade, ela acabou esfriando por completo. A ela, só tem restado lembrar dos ideais rejeitados pelo amado. E, mesmo insegura como só, ela não se sente mal amada, mas pouco amada. Mesmo tentando respeitar as diferenças em prol da realização dos longos planos que esquematizou em sua cabecinha no tempo em que convive com Maurício, a tortura aquela sensação de menosprezo – de “tanto faz” – que seu amado a transmite quando os conflitos surgem e ele fecha a discussão com um “eu sou assim e sempre fui”, deixando no ar o famoso “se me quiser assim, bem, senão, amém”. Assim, Camilla passa horas remoendo o fato de ter se dedicado todo esse tempo exclusivamente ao homem que ela espera que seja seu último companheiro, com o qual compartilhará a morte. E, assim, se torturando nos espinhos desta relação, ela tem se enxergado cada vez mais parecida com ele. Aquilo que ela critica nele, sente que tem se impregnado nela. Ela tem sido mais fria, mais “não estou nem ai! Se quiser assim, bem”. E neste meio tempo, os dois orgulhosos deixam de dar o braço a torcer. Ele, afirmando que o desajuste da relação é por causa das ideias tortas dela. Ela, certa de que ela, de fato, tem sido coerente desde o início da história de ambos.

De tanto pensar e remoer, Camilla inicia seu processo feminino de auto culpa. Ela começa a se perguntar “cadê aquele cara que se preocupava com ela quando estava adoentada ou tinha que sair mais tarde do trabalho”, a buscando mesmo quando não necessário. E como ela gostava daquele homem protetor! As perguntas se multiplicam em sua cabecinha: “– Cadê aquele rapaz que me olhava com um brilho no olhar?; — Para onde foi aquele príncipe que adorava ficar comigo e que não demonstrava um ‘tanto faz’ quando eu fazia charme dizendo que precisava ir para casa? Ele nem pede mais para ficar mais tempo comigo…; — Há quanto tempo ele não me manda uma mensagem no meio do expediente dizendo que está com saudades ou que me ama?”. Nestas reflexões, Camilla tem achado que o erro, de fato, é dela. Sim, ela que não foi capaz de seduzi-lo e mantê-lo consigo. A culpa é dela por tê-lo feito perder aquele encanto que demonstrava por ela, afinal, o sentimento dela é que aquela magia do amor está se esvaindo cada vez mais. Para ela, seus erros e até seus acertos  fizeram com que aquele homem que tanto a ensina – até mesmo a controlar seu consumismo e desejo exacerbado por roupas e sapatos – se cansou dela.

— Será que para ele não sou mais tão interessante como parecia ser? Talvez, ele que dizia querer um “para sempre” comigo, não está me aturando mais.

Camilla, magoada e ressentida, mantém-se na esperança – a (infeliz) arte de esperar – de que o feitiço cegante que recaiu sobre seu príncipe seja magicamente retirado e ela volte a ser objeto de idolatração dele, como amigos dele chegaram a exageradamente pontuar que ela era para ele. Se Camilla não passa de uma garota mimada que nutre ideais utópicos e que está fadada a sofrer, nunca nos será esclarecido, pois apenas cada um sabe o doce e o amargo de ser o que é e as tristezas e alegrias que traz no coração. Como este conto, que parece não ser de fadas, vai terminar, também ainda não nos cabe saber, pois mesmo um tanto frustrada, Camilla está viva. Seus ideais são seus maiores sonhos, aquilo que move o seu ser. Estão lá, latentes em seu íntimo, mesmo que adormecidos por um desejo de ser feliz com o cara que parece ser o cara certo. Se ela apenas sonha e acordará de um pesadelo ou para um pesadelo, não nos é permitido saber porque, como dito, a história da Camilla está sendo escrita neste momento.

Maurício sempre teve a faca e o queijo em suas mãos. Nos cabe a dúvida se ele não sabe cortá-lo ou se não o interessa devorar esse queijo sem auxílio de verdades que cortam os sonhos de Camilla e ceifam seus ideais. A certeza é que amores são brigas de talheres de egos que deviam se devorar com as mãos.


No fundo, o segredo é o tato.

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